A Soberania do Amor

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Ouço há anos a afirmação de que “Deus é soberano”. Durante algum tempo, pareceu-me óbvio e não percebia porque repetiam tanto a expressão. Depois, detetei que o adjetivo “soberano” implicava um conjunto de significados que a soberania pode ter. Descobri que, no contexto em que era utilizado, remetia a uma conceção calvinista de soberania. Este conceito resume-se ao facto de Deus ter todas as coisas debaixo do seu controlo.

 

Posso imaginar um grande auditório, com um pregador elevando a voz: “Deus é soberano!”. A multidão, mais ou menos efusiva, concordará com um Amem coletivo. Posso adivinhar que os conceitos de soberania irão variar em algumas mentes. Infelizmente, poucos ousarão questionar e indagar sobre o assunto.

 

Considerando a soberania como o controlo de todas as coisas, pergunto: o que significa isso exatamente? Alguém poderá responder de forma simplista: Deus controla tudo. Mas de que forma? Numa perspetiva de calvinismo radical, significa isso mesmo, Deus controla tudo, até as nossas ações, tendo sido predestinadas desde a eternidade. Graças a Deus que, nem mesmo parte dos calvinistas acredita nisto plenamente.

 

Não vou discorrer acerca do livre-arbítrio, já muitos o fizeram eximiamente. Mas, sim, acredito plenamente no livre-arbítrio, como liberdade total de escolha dada por Deus a todas as suas criaturas. No entanto, como fica a soberania e consequentemente o controlo de Deus sobre todas as coisas? Quando observo posts em redes sociais com o chavão “Deus está no controlo”, será que as pessoas pensam no que estão a transmitir? Será que querem dizer que Deus as controla, controla todas as circunstâncias, todo o curso dos acontecimentos, sem que o homem possa escolher outro caminho diferente daquele que Deus já determinou?

 

Creio que a maioria dos cristãos repete frases que ouve dos púlpitos, quando consideram que se aplica a uma situação que estão a viver ou na tentativa de encorajar outros. Quando dizemos que Deus está no controlo, temos de ser claros… Acredito que Deus me controla, acredito que Deus controla todas as circunstâncias da minha vida? Se sim, será parcial ou completamente? Se creio num controlo total, somos como fantoches numa peça de teatro que um dia findará. Um controlo parcial, significará que haverá espaço para alguma liberdade pessoal de outros intervenientes, sejam estes seres humanos ou outras entidades espirituais.

 

Não me parece que um controlo total se coadune com a liberdade de escolha humana. Sei que alguns creem assim, mas também sei que ainda que escrevesse muitos volumes com todos os argumentos bíblicos, não os demoveria. O que pretendo é apenas motivar à reflexão e ao questionamento. Será que o que digo é o que creio? Será que penso nas implicações do que repito porque ouvi de outros?

 

Deus é soberano! Nunca irei negar esta afirmação. Mas, ela não significa apenas o conceito calvinista. Deus é o soberano sobre toda a criação e o que possa existir além dela. Para mim, quer dizer que ele é o Senhor, o Criador, Aquele que tem o domínio sobre tudo. O que ele decide, ninguém pode invalidar. O que ele determinar, assim se fará. Porém, descobri que, na sua soberania, Ele decidiu não controlar, quando decidiu criar para amar.

 

A soberania divina, embebida pelo amor divino, do Éden até à Cruz, decidiu não controlar todas as coisas. Ele podia e teria todo o direito de fazê-lo. Todavia, a soberania divina, decidiu amar de tal maneira que deu algo tremendo às criaturas: liberdade. Note-se que não é exclusivo do homem. Os anjos gozam de plena liberdade também. É por isso que o primeiro pecado não foi o que Adão e Eva, mas já pelo menos Satanás havia pecado. O pecado não é mais que o uso da liberdade contrariando a vontade divina.

 

Muito a teologia tem discorrido sobre estas questões… Porém, a chave para compreender termina sendo sempre a mesma. É tão simples! Tão simples que é difícil para o homem compreender. Chama-se Amor. No amor não há controlo. No amor há convite, entrega, partilha, sedução do outro pelo afeto… O amor divino é tão extraordinário que “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho…”. Amou “de tal maneira”! Não sabemos como é esta forma de amar, só Deus o sabe!

 

Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor; e fui para eles como os que tiram o jugo de sobre as suas queixadas, e me inclinei para lhes dar de comer. (Oséias 11:4)

De longe o Senhor me apareceu, dizendo: Pois que com amor eterno te amei, também com benignidade te atraí. (Jeremias 31:3)

 

Lemos a Bíblia e percebemos que Deus determinou algumas coisas e até controla algumas coisas. Existem eventos que Deus determinou quando o homem pecou, pois era preciso decidir que o mal teria um fim. Aquilo que Deus decide, todavia, é sempre embebido pelo amor divino. Até mesmo a sua ira dura apenas um momento, enquanto a sua benignidade dura para sempre (Salmo 30:5; 100:5). A misericórdia triunfa sobre o juízo (Tiago 2:3b).

 

Creio que Deus é por nós! Creio que Ele é mesmo por nós: sofre as nossas tristezas, luta as nossas batalhas, chora as nossas lágrimas, ri com as nossas alegrias… Ele, através do Cristo encarnado, sentiu a nossa humanidade. Se antes já nos “amou de tal maneira”, como nos amará agora que sentiu todo nosso sentir como um de nós?

 

Creio que Deus não controla, antes enviou o seu Espírito, que chamou de Ajudador e Consolador, não Controlador. Ele nos dirige para o que o Pai indica como o melhor caminho e convida-nos a segui-lo na direção do melhor para nós. Quando nos entregamos de coração, ele até controla algo em nós, mas aquilo que deixamos, tal como seres apaixonados que se entregam.

 

Deus ainda é soberano? Sim, mas é soberano assim! O rei soberano sobre o seu trono, desce do trono e dá a mão à sua noiva, para de novo se sentar com ela ao seu lado. Se aqui na terra for tão difícil que não percebamos, pela eternidade iremos experimentar que o seu Amor dura eternamente!