Existem maldições hereditárias?

Posted on

Existem maldições hereditárias?

Por diversas vezes têm-me questionado se existem realmente maldições hereditárias. Lembro-me de ter lido um livro há muitos anos sobre o assunto que consistia basicamente em testemunhos. Mas, será que há respaldo bíblico?

 

Antigo Testamento

A maior referência a uma maldição hereditária é a herança de Adão. Adão e Eva pecaram transgredindo o mandamento divino (Génesis 2:16-17). Logo após o evento, Deus anunciou quais seriam as consequências:

E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a dor da tua conceição; em dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. E ao homem disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei dizendo: Não comerás dela; maldita é a terra por tua causa; em fadiga comerás dela todos os dias da tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos; e comerás das ervas do campo. Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; porquanto és pó, e ao pó tornarás. (Génesis 3:16-19)

 

As repercussões atingiram toda a descendência de Adão até à atualidade. A dificuldade da mulher dar à luz proveio dos nossos ancestrais, assim como a luta para obter alimento e o domínio do homem sobre a mulher. Podemos perceber o princípio da hereditariedade na consequência do pecado que surgirá ao longo do texto bíblico.

Em Génesis 27, há um relato de algo semelhante a uma maldição hereditária. Isaque, depois de ser enganado por Jacob, profere palavras nada abençoadoras sobre o seu filho Esaú:

Respondeu-lhe Isaque, seu pai: Longe dos lugares férteis da terra será a tua habitação, longe do orvalho do alto céu; pela tua espada viverás, e a teu irmão, serviras; mas quando te tornares impaciente, então sacudirás o seu jugo do teu pescoço. (Génesis 27:39 -40)

Tudo o que Isaque falou, veio a cumprir-se na vida dos filhos e dos seus descendentes. Que culpa teriam os filhos de Esaú? Nenhuma, mas sofreram com a herança que receberam. Se observarmos a histórias bíblicas, elas valorizam tremendamente a palavra humana, além da divina. A Bíblia trata as palavras que os homens proferem como algo importante. A morte e a vida estão no “poder da língua” (Provérbios 18:21).

Isaías 8:19 refere a proibição de consultar espíritos familiares. Sabemos que os mortos não voltam para falar com os vivos, mas espíritos falam com os homens fazendo passar-se por familiares falecidos. Pode ser interpretado que estes espíritos acompanham as famílias durante gerações, mas o texto não é claro, logo ficamos apenas com testemunhos, que não é o que nos propomos.

Poderíamos explorar muitos textos, como por exemplo as palavras dos profetas e como elas tinham consequências para indivíduos e nações, mas chamamos a atenção apenas para um caso, Balaão. Deus proíbe este profeta gentílico de amaldiçoar Israel, pois Deus o abençoara (Números 22:12). Se não houvesse consequências, porque Deus proibiria o profeta? No entanto, Balaão escolhe ficar do lado de Deus e abençoar diversas vezes o povo.

Concluímos, que dois princípios são base para as maldições hereditárias, no contexto em que as apresentamos, o princípio da hereditariedade e o princípio do poder das palavras. Vemos nas Escrituras que tanto bênção (por exemplo a bênção de Abraão) como maldição (por exemplo a de Adão e Esaú) afetam a descendência.

 

Novo Testamento

É importante, ao meditarmos em qualquer tema, percebermos até que ponto há diferenças após a encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus. Sabemos que Cristo falava as palavras do Pai e manifestava a vontade plena do Pai no seu ministério (João 5:19).

Em todas as curas e exorcismos que Cristo fez, notamos um caso que interessa ao nosso tema:

E passando Jesus, viu um homem cego de nascença. Perguntaram-lhe os seus discípulos: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Respondeu Jesus: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi para que nele se manifestem as obras de Deus. Importa que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; vem a noite, quando ninguém pode trabalhar. (João 9:1-4)

Os discípulos perguntam algo que mediante o que vimos anteriormente era uma pergunta com muito sentido. Acresce o facto do próprio Cristo associar a enfermidade, em alguns casos, como consequência de pecado (Marcos 2:9; João 5:14). Seria provável que a cegueira pudesse dever-se a pecado do próprio ou da família, pois isso era interpretado nas Escrituras como possível. Note-se que Cristo também não disse que isso era impossível. Outro aspeto é que a pergunta realizada não se destinava a perguntar acerca das enfermidades de todos os homens, mas daquele caso em particular. Assim não podemos extrapolar a resposta para todos os homens, mas para aquele cego apenas.

A questão foi respondida com a informação de que o caso daquele cego não se devia a pecado, mas “foi para que nele se manifestem as obras de Deus”. O que significarão estas palavras enigmáticas? Uma das explicações bastante válida é a seguinte. Existiam sinais que identificavam aquele que seria o Messias esperado. Um dos sinais era a cura de um cego de nascença. [1] Tal como teve de existir um Judas para trair a Cristo, teria de existir um cego de nascença para que o Messias o curasse e assim manifestasse a sua glória.

A glória de Deus foi manifestada na mudança da situação do cego, não na sua situação de cegueira. Note-se que é uma exceção e o cego não continuou sem ver, mas como o Senhor disse “importa que façamos as obras daquele que me enviou”, ou seja, curar e libertar o homem do pecado e de toda a opressão.

Podemos tirar algumas conclusões do texto… O caso do cego não é prova da inexistência de maldições hereditárias, antes demonstra que eram conhecidas e as Escrituras eram assim interpretadas. No caso do cego, não havia maldição de nenhum tipo, apenas aconteceu para que Cristo manifestasse a vontade do Pai nele, ou seja, que fosse curado completamente. A vontade do Pai não era que o cego fosse cego, mas que o cego fosse curado.

Em relação a maldições sobre os homens será que há algum texto no Novo Testamento? Em Lucas 9:54, os discípulos perguntam ao Senhor se ele concorda em que orem para que caia fogo do céu sobre os samaritanos. Logo o Senhor os repreendeu. Eles pretendiam nada mais que amaldiçoar aquele povo. Terá sido o que aconteceu provavelmente com Ananias e Safira (Atos 5), através de Pedro que exerceu o julgamento com as suas palavras sobre o casal, devido ao pecado manifesto e revelado.

Podemos encontrar na Epístola de Tiago uma passagem interessante:

A língua também é um fogo; sim, a língua, qual mundo de iniqüidade, colocada entre os nossos membros, contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, sendo por sua vez inflamada pelo inferno. Pois toda espécie tanto de feras, como de aves, tanto de répteis como de animais do mar, se doma, e tem sido domada pelo gênero humano; mas a língua, nenhum homem a pode domar. É um mal irrefreável; está cheia de peçonha mortal. Com ela bendizemos ao Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca procede bênção e maldição. Não convém, meus irmãos, que se faça assim. Porventura a fonte deita da mesma abertura água doce e água amargosa? Meus irmãos, pode acaso uma figueira produzir azeitonas, ou uma videira figos? Nem tampouco pode uma fonte de água salgada dar água doce. (Tiago 3:6-12)

 

Certamente Tiago conhecia Provérbios 18:21, pois é magnífica a forma como expõe a capacidade de abençoar e amaldiçoar com as nossas palavras. Somos exortados a seu canal de bênção e não maldição.

Resta-nos uma pergunta: pode um cristão ser amaldiçoado? É realmente uma pergunta difícil. Sabemos que a Bíblia diz que “o diabo anda ao nosso redor buscando a quem possa tragar” (I Pedro 5:8) e que em algum momento pecamos (I Jo 2:1,9). Existem duas possibilidades: o cristão nunca pode ser amaldiçoado, ou o cristão eventualmente em certas circunstâncias poderá sofrer com alguma maldição.

O que podemos ter a certeza na Bíblia é que a vida do cristão é uma luta contra o mundo, o pecado e o diabo. Sabemos que todas as dificuldades e sofrimentos deste mundo nos vão afetar de alguma forma, em algum momento das nossas vidas. É da minha opinião que em caso de pecado ou de fraqueza espiritual, poderá eventualmente alguma maldição (entenda-se palavras amaldiçoadoras ou ataque satânico) afetar o crente.

Tendo em conta todos os textos apresentados, não pode ser afirmado pela Bíblia que o filho de Deus não pode ser afetado pelos ataques vindos de maldições de pessoas ou de entidades espírituais. Contudo, o cristão pode defender-se e ser protegido por Deus durante a sua vida. Apesar da intervenção divina, os cristãos não são chamados para uma passividade apenas na bênção, mas são chamados para lutar, seguindo o seu General, Cristo. A carta aos Efésios chama-nos a colocar a armadura e lutar contra entidades espirituais e não contra homens (Efésios 6), orando em todo o tempo, abençoando os homens.

[1] Ouvi no ensino do Pr. Ed René Kivitz.