Deus dá muito mais honra ao que tem falta dela

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igreja, corpo de Cristo

Segundo Deus, o importante é que todos participem e não que tudo seja perfeito. Quanto mais pessoas cooperarem em união, maior é o sucesso aos olhos de Deus. Não é a perfeição do resultado, mas a perfeição do amor em ação que indica o sucesso. O vínculo da perfeição é o amor (Colossenses 3:14), não a técnica e sabedoria humanas.

O mundo grita-nos “sê o melhor”, “anda com os melhores”, “aparenta ser rico, perfeito, imperturbável”, “a aparência é o importante”… Assim, exigimos da nossa família, dos nossos filhos, dos nossos irmãos em Cristo, que sejam os melhores, e se não o são, pelo menos que pareçam ser… Queremos ter o melhor carro, a melhor casa, as melhores notas, a roupa de marca da moda, o curso da moda, as pregações da moda; até “os pecados da moda” são desculpados…

Escolhemos os amigos, dentro e fora da igreja, que estão de acordo com a imagem que queremos manter. No autocarro, no trabalho, em lugares públicos, não falamos com pessoas que não estão ao nosso nível.

Na igreja exigimos que para cantar num grupo de louvor haja uma técnica musical de topo. Para ensinar deverá saber falar bem a língua e ter uma gramática correta. Tudo deve ser perfeito! A nossa prioridade é a perfeição aparente!… Por isso, em alguns casos infelizmente, é melhor ter alguém que vive em pecado, mas que cante e fale bem, que alguém que viva em santificação, mas o faça menos bem. Vale mais haver um só instrumento perfeito que muitos com pouca técnica, um pregador que fale com gramática e doutrina exemplar que muitos participantes não tão dotados e espirituais… E isto poderia ser estendido a muitas outras áreas…

I Coríntios 12 descreve-nos outra forma de ver o seu povo, a maneira de Deus:

Este tema prende-se com o conceito de “excelência”. Supostamente, tudo o que fazemos para Deus deve ser feito com excelência. Mas, que excelência é esta? A excelência dos valores e classificações humanos, ou a excelência divina? Quais os critérios da excelência divina? Deus olha para o visível ou para o que não se vê? Em tudo, temos de cuidar para não cair em radicalismos, mas é importante perceber o que as Escrituras nos dizem.

Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo. Pois em um só Espírito fomos todos nós baptizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espírito. Porque também o corpo não é um membro, mas muitos. Se o pé disser: Porque não sou mão, não sou do corpo; nem por isso deixará de ser do corpo. E se a orelha disser: Porque não sou olho, não sou do corpo; nem por isso deixará de ser do corpo. Se o corpo todo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfacto? Mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis. E, se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo?
Agora, porém, há muitos membros, mas um só corpo. E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós. Antes, os membros do corpo que parecem ser mais fracos são necessários; e os membros do corpo que reputamos serem menos honrados, a esses revestimos com muito mais honra; e os que em nós não são decorosos têm muito mais decoro, ao passo que os decorosos não têm necessidade disso. Mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela, para que não haja divisão no corpo, mas que os membros tenham igual cuidado uns dos outros.
De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele. Ora, vós sois corpo de Cristo, e individualmente seus membros.

A prioridade de Deus é a unidade do corpo e para isso ensina-nos um segredo: honrar aquele que não é honrado, tornar necessário aquele que não é aparentemente necessário, valorizar mais aquele que parece não ter valor.
O Corpo de Cristo deve ser uma unidade e não uma elite e seus fãs. Habituamo-nos a ver super pastores, super músicos, super líderes, que fazem tudo perfeito (por vezes em perfeito stress). Isto porque não há mais ninguém para fazer, segundo dizem…

A verdade é que quando uma estrela sai de cena, há sempre alguém que começa a deixar que Deus o use como vaso e temos  uma oportunidade de “dar mais honra ao que tem falta dela”.

Deus age em prol da unidade ativa, uma unidade em que todos se movem, crescem , cooperam… Os que não têm honra, que não sabem fazer aquilo que se espera deles, Deus quer que os acolhamos e honremos. O que ainda não toca bem, em vez de excluído é integrado e os outros devem orar e tomar sobre si o fardo de o apoiar, motivar, porque ele faz parte do corpo e precisa de honra… Segundo Deus o importante é que todos participem e não que tudo seja perfeito.

Quanto mais pessoas cooperarem em união, maior é o sucesso aos olhos de Deus. Não é a perfeição do resultado, mas a perfeição do amor em ação que indica o sucesso. O vínculo da perfeição é o amor (Colossenses 3:14), não a técnica e sabedoria humanas.

Embora os Apóstolos ensinassem, quando chegavam a uma igreja, o modelo primitivo era:

Que fazer, pois, irmãos? Quando vos congregais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. (I Coríntios 14:26)

A participação de todos, de “cada um de vós” em unidade impede o desenvolvimento do orgulho no serviço. O papel dos líderes é treinarem o corpo na obra do ministério (Efésios 4) e não assumirem as tarefas como se mais ninguém as pudesse desempenhar. Talvez não haja ninguém segundo o conceito de perfeição humano, mas há sempre segundo o conceito de perfeição e honra divinas.

É certo que cada um tem dons e deve operar neles, mas existe um caminho mais excelente (I Coríntios 12:31, 13:1) que qualquer dom, o amor que sabe dizer: “convém que o irmão cresça e eu diminua” (João 3:30), como está escrito: ” nada façais por contenda ou por vanglória, mas com humildade cada um considere os outros superiores a si mesmo ” (Filipenses 2:3). Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos (Mateus 20:16) e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será vosso servo (Mateus 20:27).

O Senhor chamou os indoutos e simples pescadores para serem os seus mestres para os mundo. Deus chama a si os coxos aleijados e os desprezados (Lucas 14:16-24). Mesmo Paulo, Deus viu-o como um vaso onde Ele se podia mover e tocar o mundo (Actos 9:15) e não um sábio que tinha capacidade própria de alcançar o mundo. Para com Deus, não há aceção de pessoas (Romanos 2:11). Todos são barro em suas mãos, todos têm igual valor e capacidade, todos podem ser usados pelo seu Espírito. Habituamo-nos à idolatria humana, onde há adoradores de homens, homens insubstituíveis que produzem desonra à sua volta. Já nos acomodamos à tradição idólatra da insubstituibilidade das nossas estrelas.

O simples de coração sincero, que de aparência nada é, fica à espera de ser honrado com o direito de salmodiar, exortar, edificar a igreja. Na verdade, estes deveriam ter a primazia na igreja. Aqueles que nunca puderam abençoar os outros com a porção do Espírito que lhes cabe deveriam estar em primeiro lugar para o fazer. O princípio da ação de Deus, para nosso exemplo é dar “muito mais honra ao que tem falta dela, para que não haja divisão no corpo, mas que os membros tenham igual cuidado uns dos outros”. A unção, a presença, a manifestação do Espírito de Deus surge associada muitas vezes a este amor e unidade entre os cristãos.

Salmos 133
Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união! É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desceu sobre a barba, a barba de Arão, que desceu sobre a gola das suas vestes; como o orvalho de Hermom, que desce sobre os montes de Sião; porque ali o Senhor ordenou a bênção, a vida para sempre.

Neste Salmo a união entre os irmãos é considerada algo tão bom, que é difícil descrever. O salmista procura então exemplos que possam mostrar a importância da união e compara-a ao óleo precioso que ungiu Arão como sumo-sacerdote levita que entrava na presença de Deus no Lugar Santíssimo. Compara-a também ao orvalho que desce sobre Hermom e os montes de Sião. O monte Hermom foi onde Cristo foi transfigurado e os montes de Sião incluem o monte onde está Jerusalém, a cidade amada de Deus, onde voltará o seu Messias para reinar. O orvalho é um símbolo do Espírito Santo, assim como o óleo da unção. Este é o contexto onde é enfatizada e elevada a união dos irmãos perante Deus.

Segue-se outra passagem onde unção do Espírito, cooperação do corpo e sujeição surgem conjuntamente:

E não vos embriagueis com vinho, no qual há devassidão, mas enchei-vos do Espírito, falando entre vós em salmos, hinos, e cânticos espirituais, cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração, sempre dando graças por tudo a Deus, o Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo. (Efésios 5:18-21)

Note-se o ambiente comunitário que é descrito. O enchimento do Espírito acontece quando há um “falando, cantando, salmodiando entre vós”. O que deve existir como base é “sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo”. O temor a Cristo faz-nos sujeitar a Ele e ao submeter-nos a Ele e não ao nosso orgulho, sujeitamo-nos aos outros. Então todos participam em comunhão e ficam cheios do Espírito.

>Lucinda Ribeiro Alves